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sexta-feira, 4 de julho de 2008

«CAPITÃO FRANCISCO CORREIA MARQUES (1930 - 2006)»


«Faleceu no passado dia 2 de Novembro o capitão da Marinha Mercante Francisco Correia Marques, o último comandante do lugre Creoula em campanhas de pesca do bacalhau. Natural de Ílhavo, onde nasceu em 1930, termina em 1949 o seu curso de pilotagem e, em 1953 é já comandante do lugre Adélia Maria, tornando-se no mais jovem capitão da frota do bacalhau. Depois de mais de 28 anos de mar, fez a sua última viagem em 1989. Regressado à sua terra natal começa a trabalhar no Grupo de Amigos do Museu Marítimo de Ílhavo, recolhendo e catalogando um vasto espólio, de que resultaria a exposição Faina Maior. Em 1996 escreve, em parceria com [Ana Maria Lopes], o livro “Faina Maior, a Pesca do Bacalhau nos Bancos da Terra Nova”. Em 1998 embarca de novo no Creoula, agora como Director de Treino dos jovens portugueses e canadianos durante o projecto “De Novo na Terra Nova” organizado pelos Amigos do Museu Marítimo de Ílhavo.

De 1999 a 2002 é Director do Museu Marítimo de Ílhavo onde dirigiu os trabalhos de transferência do Museu para as suas actuais instalações e da adequação do seu discurso museológico. Ali projectou e executou a réplica de um iate bacalhoeiro, em tamanho natural, que é hoje o principal ícone da exposição permanente daquele museu, numa sala que ostenta hoje o seu nome.

Sempre ligado às coisas do mar eram frequentes as suas visitas à Capitania do Porto de Aveiro e ao Arquivo Central da Marinha em busca de elementos para as suas pesquisas. Participa também, em 2001, no I congresso Internacional da História da Pesca do Bacalhau e escreve «Creoula – A Pesca do Bacalhau no Crepúsculo da Navegação à Vela». Em 2002 é entronizado como confrade da Confraria Gastronómica do Bacalhau e, deixada a direcção do Museu, volta aos corpos sociais do Grupo de Amigos do Museu. Desenvolve então intensa actividade de investigação e divulgação sobre tudo o que respeita à pesca do bacalhau, participando em vários encontros, entrevistas, colóquios e conferências em instituições científicas ou estabelecimentos de ensino; na Escola Naval proferiu também uma brilhante palestra sobre este tema.

Conheci o capitão Francisco Marques em 1996 quando ele gingava dentro de um pequeno dóri com a mesma facilidade com que o comum dos mortais anda a pé... Ainda guardo na memória aquela imagem! Deste primeiro contacto ficou a minha grande admiração por aquele homem que fez o favor de ficar meu amigo. Depois deste encontro inicial, muitos outros houve em que a minha curiosidade sobre a vida do mar dos pescadores do bacalhau o fez perder muitas horas a contar-me histórias da sua longa experiência; com ele aprendi muito do que sei sobre a epopeia da pesca do bacalhau
.»

Por CMG J. A. Rodrigues Pereira, in «[REVISTA DA ARMADA]», edição de Janeiro de 2007

quinta-feira, 15 de maio de 2008

A “Espuma“ do NTM “Creoula”


«Registou-se recentemente a morte da mascote do Navio de Treino de Mar “Creoula”, a cadela “Espuma”. A Revista da Armada consagra-lhe hoje estas linhas, porque a “Espuma” fazia parte integrante da guarnição do NTM “Creoula” desde há quinze anos, ou seja, ao longo de quase toda a vida do “Creoula” como Navio de Treino de Mar (relembra-se que esta segunda etapa do navio teve início em 1987.).

Nascida em 30 de Março de 1990 no canil das Avencas – Parede, a “Espuma” foi oferecida pela respectiva proprietária, criadora de cães-de-água, prestigiada raça canina portuguesa que, como o nome sugere, evidencia características de uma particular adaptação à vida do mar com a existência de membranas interdigitais relativamente desenvolvidas, ao mergulhar as narinas ficam bloqueadas evitando a entrada de água para a garganta e os regulares movimentos de cauda, semelhantes aos de uma hélice, de modo a impulsionar o corpo, quando em natação – para além do espesso revestimento de pêlo encaracolado, destinado a conferir-lhe resistência durante as longas permanências na água fria.

A “Espuma das Avencas”, nome de registo, integrou a guarnição do “Creoula” com apenas um mês de idade, e cumpriu desde então no navio uma comissão correspondente aos seus quinze anos de vida – aliás, com os maiores zelo, empenho e dedicação, como diríamos se nos encontrássemos a redigir o louvor de um elemento da guarnição, quando do seu destacamento. E, de certo modo, talvez seja um pouco disso que se trata... mas, mais do que um louvor, é sobretudo o evocar da sua recordação que constitui a razão de ser deste pequeno texto.

Uma memória muito grata partilhada por diversos comandantes (houve troca de telefonemas na data da morte da “Espuma”...), dezenas de oficiais, centenas de elementos da guarnição...e milhares de jovens que, embarcados no “Creoula”, puderam vivenciar de modo directo a ligação ao mar e à vida de bordo, através da experiência marcante de um treino de mar neste navio...

Ao longo de década e meia, foram mais de sete mil e quinhentos os instruendos, designação atribuída aos jovens embarcados no “Creoula” que travaram conhecimento com a “Espuma”, lhe fizeram festas ou pediram a pata, a fotografaram ou se fizeram fotografar ao seu lado, posando por vezes a cadela com o boné do “Creoula” e lhe ofereceram pistaccios – guloseima preferida – em troca de uma profunda gratidão...

Extraordinariamente meiga e dócil, soube ser a mascote ideal, perfilando-se com os instruendos e a guarnição na formatura das 8:30 h, partilhando os momentos de enjoo quando estava mar, mas também os momentos de lazer no convés, os banhos de mangueira a meio-navio nas tardes de calor tórrido e os refrescantes mergulhos em alto mar, com o “Creoula” pairando ao largo nos anos de juventude, ninguém a conseguia impedir de saltar para a água quando via mergulhar o primeiro instruendo, fazendo apelo ao seu instinto protector de cão-de-água...; nos portos, muitos foram os bons momentos na companhia dos instruendos, na praia, de que era particular apreciadora, ou percorrendo, pela trela, os longos passeios marítimos nas noites cálidas de Verão.

E por falar em noites, como não recordar os momentos em que servia de almofada aos jovens que resolviam passar a noite no convés observando as estrelas, encolhidos no seu saco-cama, sob a pilha de dóris ? E se não fosse quase segredo, poderíamos ainda evocar a imagem de algumas meninas de 14, 15 anos, que levavam ao colo a pequena “Espuminha” para dormir no 3º beliche... e que, quem sabe, hoje, 15 anos depois, talvez tenham oferecido aos seus filhos um pequeno cão-de-água, também preto e encaracolado...

Marinheira com mais horas de navegação a bordo, a “Espuma” navegou ininterruptamente durante catorze Verões relembra-se que na qualidade de Navio de Treino de Mar, o “Creoula” navega, todos os anos, sensivelmente, entre os meses de Maio e Outubro, fez escala nos mais diversos portos da costa portuguesa, Madeira e Açores, bem como portos estrangeiros (de entre os quais, países da Escandinávia, Amsterdão, Bruges, Londres, Weymouth, St. Malo, Vigo e la Coruña – e no Sul da Europa e Norte de África, Tunísia, Nápoles, Génova, Nice, Barcelona, Valência, Cádiz, Ilhas Canárias, Tânger, Ceuta e Casablanca, tendo efectuado também a viagem ao Canadá em 1998, no âmbito do projecto: ”Creoula - de novo na Terra Nova.” Marcou com a sua presença tanto as missões mais curtas, correspondentes a um fim-de-semana ou alguns dias navegando ao longo da costa portuguesa, regista-se a sua predilecção pela Berlenga... como as longas regatas internacionais – as famosas “Cutty Sark” – e os cruzeiros oceânicos, com duração superior a um mês.

O actual Comandante, quando interrogado sobre a “Espuma”, costumava dizer, precisamente:”É o elemento da guarnição que tem mais horas de navegação, o que melhor conhece o navio. Se pudesse falar, creio que participaria de modo muito válido em todas as operações de manobra do navio, e contribuiria realmente, com indicações precisas, como: a escota não passa por aí, ou: isso nunca se fez assim...”

Há ainda que recordar a sua vertente de estrela dos meios de comunicação social. Ao longo dos quinze anos, foram muitos os jornais e revistas que, em trabalhos sobre o “Creoula” se referiram, em termos sempre elogiosos, à “Espuma”, tendo alguns publicado artigos a seu respeito, na generalidade ilustrados com respectiva fotografia em diversos contextos da vida a bordo. Foi ainda protagonista de programas transmitidos pela televisão, tendo chegado mesmo a ser entrevistada pelos apresentadores, prova a que se prestava com a bonomia e afabilidade que mantinha em todas as situações, como boa embaixadora do navio.

É justo relembrar aqui os sucessivos tratadores que a ela se dedicaram ao longo dos anos, zelando de modo próximo e atento pela sua saúde e bem-estar, controlando as tosquias, as vacinas...e convidando-a inclusivé para passar em sua casa, na companhia de crianças - e até de outros cães! - fins-de-semana ou períodos de festa, como o Natal...

Não seria correcto deixar também de mencionar os cozinheiros que, ao longo dos tempos, mimaram a “Espuminha”, reservando-lhe sempre um pitéu especial... razão pela qual o capacho da cozinha se tornou um dos seus lugares predilectos a bordo.

Cumpre ainda, neste pequeno texto, render tributo de gratidão à Dra. Jacqueline Silva Dias, viúva do saudoso Comandante Silva Dias, que nutria pela cadela grande afecto, aliás totalmente retribuído e que, na última fase da vida da mascote, lhe proporcionou os maiores cuidados e carinhos, na exacta medida em que a “Espuminha” os merecia.

Sabemos que todos os que, elementos da guarnição ou instruendos do “Creoula”, conheceram a “Espuma” estão de acordo: a “Espuma” merecia tudo. E nunca a esquecerão».

Fonte: «Revista da Armada», edição de [Agosto de 2005]

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008


Descobrimos o CREOULA retratado em mais uma capa da «Revista da Armada» (ver os mastros no lado direito da fotografia). Trata-se da capa da edição de Janeiro de 2008. Soma já quatro o número de vezes em que o CREOULA recebe tamanha distinção.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Descobrimos o CREOULA retratado em mais uma capa da «Revista da Armada». Trata-se da capa da edição de Novembro de 2006. Soma já três o número de vezes em que o CREOULA recebe tamanha distinção.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

70.º Aniversário de CREOULA

«No passado dia 10 de Maio comemorou-se com o navio atracado na Doca da Marinha o seu Septuagésimo Aniversário, tendo estado presentes alguns Almirantes e Oficiais de Marinha e diversas entidades civis de que se realçam o Dr. Aníbal Paião, Administrador da empresa “Pascoal e Filhos”, que apoiou a recuperação do “Creoula”, o Capitão Marques da Silva, penúltimo Comandante do “Creoula”, elementos da Aporvela, da Juvemédia e do Centro Náutico Moitense, Helder Claro, último gerente da Parceria Geral das Pescas (última empresa proprietária do “Creoula”) e Mário Crespo, jornalista da SIC.

A cerimónia, presidida pelo Comandante da Flotilha, CALM Tavares de Almeida, teve início com a guarnição formada no cais onde, perante todos os convidados, foram proferidos discursos pelo Comandante do navio, CFR Silva Ramos, pelo Prof. Pinto Abreu, representante da instituição que iria embarcar em mais uma missão do navio e pelo Prof. Miguel Sequeira, Presidente da Estrutura de Missão para os Assuntos do Mar.

Seguidamente, foi descerrada a bordo uma placa comemorativa do evento, tendo o CALM Tavares de Almeida efectuado um discurso alusivo, a que se seguiu um almoço. No final do almoço foram entregues medalhas comemorativas aos antigos Comandantes do Navio, homenageando no nome deles todas as guarnições que cumpriram serviço no Creoula, quer durante as campanhas do bacalhau, quer durante a sua actual missão de Navio de Treino de Mar. A cerimónia terminou com o Bolo de Aniversário, cantando-se os merecidos “Parabéns” ao Navio.

Após 70 anos, o “Creoula”, o último bacalhoeiro português e único Navio de Treino de Mar Nacional, continua a representar a ligação viva de um passado da maior importância histórica a um presente de serviço à cultura e à formação da juventude portuguesa, na perpetuação de uma tradição marítima sem igual no mundo. (Colaboração do NTM “Creoula”)»

in [Revista da Armada], edição de Julho de 2007

quinta-feira, 14 de junho de 2007

REVISTA DA ARMADA - Junho de 2007

CELEBRAR O MAR


«O mar é um elemento decisivo da construção de Portugal e da afirmação consciente do ser português. Foi do mar que brotou a alma colectiva que edificou a nossa Pátria, com a convicção íntima de si própria, e o seu carácter vincadamente diferenciado. É o mar que nos permitirá manter um conceito de vida português, distinto, por exemplo, de outros povos amigos com quem partilhamos o projecto político de formação de uma nova Europa.
Todavia, vivemos num estado de insensibilidade colectiva relativamente ao mar! Por isso, é tão débil a noção de que o mar confere ao país uma capacidade de afirmação internacional muito maior do que aquela que decorre da dimensão física do seu território. Por isso, são tão desvalorizadas as ameaças à segurança nacional que, através do mar, encontram um mais fácil acesso. Por isso, se tira tão pouco partido da função do mar enquanto via de comunicação global de pessoas e bens. Por isso, se continua a poluir o mar, em níveis tão elevados, a exercer uma tremenda pressão urbanística sobre os espaços litorais, e a sobreexplorar os recursos marinhos.É a nossa actual indiferença mental relativamente ao mar, que nos impede de percepcionar convenientemente a sua importância para elevar e robustecer Portugal. Este problema é grave, e a sua solução passa, em primeira instância, por um enriquecimento da cultura marítima dos portugueses, porque só ela permitirá desenvolver os níveis de consciência necessários para se entender o real valor do mar para o nosso país.
A cultura marítima, em sentido filosófico, designa a vida intelectual ou o pensamento crítico e reflexivo dos portugueses sobre o mar. Por um lado, compreende o estudo das ciências e das artes ligadas ao mar e, por outro lado, aplica-se à designação de um estado de perfeição intelectual e moral sobre os assuntos do mar, normalmente atingido apenas por algumas elites nacionais.Em sentido sociológico, a cultura marítima traduz o conjunto de estilos, de métodos e de valores materiais que, juntamente com os bens morais relacionados com o mar, foram adoptados pelos portugueses. Neste contexto, abrange quer um acervo de apetrechos e de instrumentos marítimos, quer um conjunto de hábitos corporais ou mentais marítimos, que servem directamente para a satisfação das necessidades de desenvolvimento e segurança dos portugueses.
A contradição aparente entre a natureza psicológica do homem e o facto de que a cultura marítima, em sentido sociológico, transcende o indivíduo, deu origem, entre nós, ao conceito metafísico de mentalidade marítima. Foi este conceito filosófico e artístico, que fez nascer Portugal como pátria de um povo marítimo. No entanto, na actualidade precisa de ser fortalecido, para que, usando o mar, possamos valorizar o que fomos, o que somos e o que queremos ser, e que possamos pensar o mar como elemento fulcral da nossa vida colectiva, em função do qual poderemos conceber e pôr em prática os novos grandes projectos nacionais. Estes, serão assumidos por uma faculdade ou potência interior, em virtude da qual cada português manifestará um desejo, uma intenção, uma pretensão, uma tendência, uma disposição de espírito, ou uma propensão mais ou menos irresistível para a realização de actos de génese marítima. Isto é, cada um de nós determinar-se-á fazer o que lhe compete na óptica do interesse nacional, tendo o mar como referência. Será esta força intangível, vulgarmente designada por vontade marítima nacional e composta por fundamentos espirituais, intelectuais e materiais, que permitirá a mobilização dos portugueses na prossecução daqueles projectos colectivos, garantindo os desempenhos estratégicos que elevarão e robustecerão Portugal.
A Marinha, ao celebrar anualmente o mar a 20 de Maio, evoca a data histórica da chegada de Vasco da Gama a Calecute, e procura fortalecer a mentalidade marítima dos portugueses e animar os fundamentos espirituais, intelectuais e materiais da vontade marítima nacional. Para isso, as nossas cerimónias estimulam os sentimentos, as ideias e as tradições do povo relativamente ao mar, partilhando o acervo tão diversificado do Museu de Marinha, do Aquário Vasco da Gama e do Planetário Calouste Gulbenkian. As iniciativas da Comissão Cultural da Marinha, da Academia de Marinha, da Biblioteca Central da Marinha, da Escola Naval, do Instituto Hidrográfico, da Revista da Armada e da Banda da Armada, divulgam as artes e ciências ligadas ao mar e contribuem para o aperfeiçoamento intelectual e moral dos portugueses sobre os assuntos do mar. A presença dos navios, dos fuzileiros e dos mergulhadores, bem como dos vários organismos da Direcção-Geral da Autoridade Marítima e da Polícia Marítima, têm como propósito fundamental evocar a presença de Portugal no mar.
Ao CELEBRAR O MAR, a Marinha festeja um passado que importa preservar e projectar no futuro que se quer construir, abrindo novas oportunidades à Nação. Porém, mais do que um momento de exaltação corporativa, é sempre uma manifestação inequívoca da perfeita e secular simbiose do País com a sua Marinha.»
In «REVISTA DA ARMADA» (fotografias e texto), edição de Junho de 2007